quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Risco Associado ou Composto - Uma realidade pouco observada na Segurança do Trabalho


Risco Associado ou Composto - Uma realidade pouco observada na Segurança do Trabalho
Marcelo Leandro Ribeiro

Estamos acostumados, em análises preliminares de risco, ou mesmo na composição de estudos, pareceres e programas como o PPRA a pontuar os agentes ambientais e sua capacidade de oferecer riscos efetivos aos trabalhadores de forma isolada.

Doutrinamo-nos a reconhecer a presença de riscos físicos, químicos e biológicos (este último, salvo exceções, com pouco aprofundamento por parte de profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho), estabelecendo mecanismos de mensuração e controle de agentes como ruído, calor, umidade ou a presença de riscos químicos como a poeira, gases, vapores e névoas, sem contudo dar uma dimensão de associação, composição e unicidade à nocividade causada por esses elementos em conjunto.

Essa incapacidade de associarmos os agentes ambientais entre si nos remete à uma forçosa impossibilidade de mapearmos adequadamente os riscos que um determinado ambiente de trabalho oferece. Tomemos como exemplo uma lavanderia hospitalar qualquer, que cometa erros em seu fluxo e apresente descuidos em relação às normas de higiene ocupacional; em seu processo temos a divisão do espaço físico em dois – área suja, por onde adentram as peças a serem processadas, e a área limpa, por onde as mesmas saem após processo de higienização química- sendo assim, existem os seguintes agentes inseridos no processo: na área suja temos a forte presença do risco biológico dada a origem dos enxovais. Essas peças serão processadas com a utilização de agentes químicos diversos e seguirão com resíduos para a área limpa. Durante a centrifugação e secagem das roupas existe um desprendimento e dispersão de microfibras de linho e algodão no ambiente, configurando poeira vegetal com grande capacidade de manter-se em suspensão, e pelas suas dimensões, facilmente absorvível pelos colaboradores da nossa hipotética lavanderia.
Já temos então os seguintes agentes elencados nesse simples processo: risco biológico presente através de colônias de micro-organismos nas peças a serem lavadas, risco químico dado os produtos a serem processados e a poeira vegetal liberada no ambiente. Caso nossa lavanderia apresente incidência elevada de ruído, ainda teríamos que acrescer esse risco físico em nossas preocupações.
Se analisarmos cada um desses elementos isoladamente, tomaremos, sem dúvida, medidas de correção, que, contudo, serão -pela sua individualidade- infrutíferas. Com certeza conseguiríamos reduzir a incidência de exposição a cada um deles, sem porém, ter a exata noção do que a combinação, mesmo que de resíduos dos agentes, poderia causar no organismo humano.
Continuemos a analisar o nosso caso fantasioso, agora tendo em mente a junção de exposição: a roupa processada na área suja, cheia de micro-organismos, segue para a área limpa mantendo fragmentos das colônias bacteriológicas, e com a suspensão de poeira vegetal no ambiente, esses micro-organismos acham um ‘veículo’ perfeito para mudar de espaço físico, transportando-se com a poeira em suspensão e sendo facilmente absorvida pelo organismo de nossos funcionários. Não teríamos então uma pneumoconiose (no nosso caso, possivelmente uma bissinose) tradicional, mas sim doença agravada pela presença de micro-organismos hostis no pulmão (e eventualmente no sangue) do trabalhador, acelerando o processo de depreciação da saúde do mesmo.
Outro caso de associação que podemos fazer dá-se com a presença do ruído em conjunto com resíduos químicos em suspensão, seja através da poeira vegetal (com grande capacidade de absorção de umidade) ou na forma de gases e vapores. Ruído e certos elementos químicos combinados, sobretudo com a característica de absorção de umidade, adquirem propriedades lesivas para frágeis membranas como os tímpanos.
Esse tipo de associação pode ser facilmente transposta para qualquer setor industrial, comercial ou de serviços.
Como os riscos são compostos, ou associativos, tratá-los de forma individualizada não surtirá efeito algum, senão a breve sensação de que estamos num ambiente sem insalubridade do ponto de vista legal, já que os indicadores quantitativos do ambiente estarão abaixo dos limites legais de tolerância, contudo, uma breve percepção qualitativa nos demonstrará o contrário, provando a fragilidade e falência de certos sistemas de gestão em segurança do trabalho.
Cabe sairmos da visão simplista tradicional da Segurança do Trabalho e buscarmos enxergar, analisar, compreender e agir sobre o ambiente de trabalho dando importância a cada aspecto, a todo item.

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