Humanizar é Preciso
Marcelo Leandro Ribeiro
O aumento da expectativa de vida do brasileiro e a busca pela universalização do acesso à saúde (pública ou privada) trouxeram à tona a discussão sobre a necessidade da chamada humanização nas relações de saúde, bem como despertaram intensos debates sobre a qualidade dos serviços prestados e como a ausência dos mecanismos fundamentais para a humanização influenciam na eficácia do atendimento e na qualidade do ambiente de trabalho.
Para que se faça um debate sério algumas místicas precisam ser rompidas e a primeira passa exatamente pela amplitude da humanização: o conceito está restrito ao atendimento, mas deve ser maximizado. A humanização completa só será levada a cabo se estiverem contempladas as necessidades dos trabalhadores da saúde.
Partindo do princípio de que o produto final da saúde é humano, nada mais natural que todo o processo seja também humanizado, desde o recebimento da ‘matéria prima’, sem dúvida valiosíssima até a saída deste das unidades de saúde.
Um pouco de história
Para compreendermos por que temos determinadas mazelas e vícios no atendimento é preciso buscamos as origens do sistema hospitalar.
Até o século XVIII os hospitais (do latim hospitale: hospedaria, refúgio) eram instituições destinadas ao desterro de vagabundos, errantes e doentes das classes mais baixas. Os abastados se tratavam em casa, sempre protegidos pelo aconchego do lar e pelo médico de confiança da família. Já àqueles que nada tinham, restava-lhe o abrigo dos hospitais ou sanatórios, sempre ligados à igreja católica (muitos tinham suas instalações ao lado das igrejas). Mais do que abrigar os doentes, os hospitais, com suas estruturas medievais, cumpriam um outro papel: o de salvaguardar a sociedade, evitando que todos aqueles leprosos e portadores de pestilências voltassem às vilas e feudos espalhando suas mazelas. Com essa compreensão, raros eram aqueles que conseguiam alta.
Não se pretendia a cura para o individuo, mas sim uma assistência material e espiritual, preparando-se os últimos cuidados e o sacramento final.
Após o século XVIII houve um evidente avanço nas técnicas de atendimento à saúde e sobretudo na ciência médica, possibilitando um aprimoramento crescente nos meios de diagnóstico e tratamento provocando uma inversão no papel dos hospitais: privilegiando a técnica e o tratamento científico, o conforto e a assistência humana foram deixados de lado.
Fato atípico dessa relação, e que, com o tempo se tornou rotineiro, foi o paciente temer mais o tratamento que a morte. O tratamento tornou-se tão traumático para o usuário do sistema de saúde que muitos preferem a morte à uma técnica ou tratamento intensivo.
Vivemos um momento paradoxal: se até o século XVIII as pessoas e hospitais ofereciam conforto e assistência aos doentes por que a ciência pouco ou nada podia lhes prover, hoje a ciência – evoluída e consolidada-, pode oferecer muito, mas as pessoas se resignaram a apresentar apenas a técnica, transformando o atendimento em impessoal.
Tratando o paciente de forma objetiva, desconsiderando aspectos subjetivos, o profissional de saúde corre o risco de implementar ações meramente tecnicistas, por muitas vezes frias. Comum é o profissional de saúde enxergar o paciente apenas como um receptáculo ou desenvolvedor de uma patologia (fonte de recursos financeiros, material para estudos ou para estatísticas, etc), como se este não tivesse nome e anseios, família e temores.
Um problema que vai além!
O hospital e as instituições de saúde não devem ser analisadas isoladamente da sociedade. Elas compõe uma estrutura maior. Não é, portanto, somente a saúde que está desumanizada. O atendimento de saúde reflete apenas uma parcela do que ocorre na sociedade, esta sim corrompida e desumana.
O que fazer?
Quando falamos de humanização temos que lembrar sempre que ela vai ocorrer não somente através das mudanças no atendimento, mas sim entre as relações profissionais na equipe. Compreender o profissional de saúde é dar um passo certeiro no sentido de melhorar as suas relações de interação com o paciente, com a família deste, e entre os membros da equipe. Melhorar suas condições de trabalho é criar um clima mais favorável ao bom atendimento e cumprimento de suas obrigações.
O profissional de saúde é um trabalhador diferenciado. Ele tem mais estudo e acesso a cultura que os trabalhadores da indústria, embora esses últimos tenham médias salariais muito mais elevadas. Além disso, a exposição aos agentes biológicos (com ampla capacidade de patogenicidade) é corriqueira. Por estarem expostos, esses profissionais tem alguns pretensos benefícios (nada mais que compensações pela sua exposição): jornadas especiais como a 12 x 36 e aposentadoria em tempo reduzido. Só que em vez de aproveitar esse tempo para se aprimorar ou descansar, o trabalhador logo busca uma segunda ou terceira colocação. A múltipla jornada é uma realidade.
Ademais, existe a necessidade de constante atualização desse profissional. A cada mês surge uma patologia nova a ser estudada e combatida, a cada ciclo de anos uma pandemia faz vítimas pelo mundo e quem está na linha de frente é o profissional da saúde.
Compreendido (e respeitado) esse profissional, chega a hora do: o que fazer? Como posso melhorar o ambiente de trabalho para eles?
A melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde geraria um circulo positivo: trabalhando em condições mais adequadas os colaboradores produziriam mais, estariam menos suscetíveis a acidentes e doenças ocupacionais que tanto prejuízo trazem às instituições, criariam vínculos com a sua equipe de trabalho e por conseqüência, prestariam o melhor dos atendimentos possíveis.
Algumas medidas simples no sentido de ampliar a humanização podem ser tomadas pelo governo e pelas instituições. A humanização então, da forma como propomos e a compreendemos, visa ser um via de mão dupla, beneficiando trabalhadores da saúde e, sobretudo e principalmente, os pacientes.No que concerne à formação do profissional de saúde, preparando-o para um atendimento mais humano elencamos a necessidade de:
*Instituição de uma grade curricular diferenciada nos cursos técnicos e de graduação nas áreas de saúde, com maior carga horário de ética, psicologia social e do trabalho e a criação de uma disciplina de humanização·
*Desburocratização dos serviços de saúde.·Maior integração entre as áreas e implementação de círculos de conhecimento e trabalho (absorvendo até mesmo o conceito de educação continuada da NR-32);
*Mais investimentos em formação técnico-profissional;
*Redução da carga horária dos profissionais de saúde. Agindo sobre o operador de saúde o serviço prestado vai ser melhor, e só assim atingirá o usuário. Não se pode exigir respeito do usuário se esse não está recebendo um tratamento de respeito. O usuário é a última parte do círculo da humanização e sem ele estar convencido e satisfeito com a qualidade do sistema, não há atendimento que passe sob o crivo da verdadeira humanização.
O papel do SESMT na luta pela humanização
Descrito como pensamos a humanização da saúde fica claro que o SESMT, nos hospitais e clínicas onde exista esse serviço, tem um papel interno, na compreensão e convencimento das frentes de trabalho acerca da necessária mudança de postura e cultura.
Cabe ao SESMT também a luta cotidiana por melhores (e mais seguras) condições de trabalho aos profissionais por ele representados. Atingida essa mudança o nível de satisfação interno melhorará, por conseqüência, a capacidade do operador de saúde oferecer um melhor tratamento aos pacientes.
O papel do governo na luta pela humanização
Já ao governo cabe a regulamentação de mudanças estruturais e conjunturais para o setor, como a redução da jornada de trabalho e incentivos variados; a proibição de múltiplos empregos (sobretudo para enfermeiros e afins) e a regulamentação dos estágios e ensino técnico e superior no sentido de dotá-los de uma visão mais humanista.
Embora saibamos que não se mudam séculos em alguns dias, não custa darmos os primeiros passos.
Marcelo Leandro Ribeiro
Técnico de Segurança do Trabalho
Coordenador do SESMT do Grupo Samaritano Sorocaba
marcelo.ribeiro@hsmediplan.com.br
marceloadifa@hotmail.com
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