terça-feira, 20 de outubro de 2009

Antes que o circo pegue fogo e a água não resolva

Antes que o circo pegue fogo e a água não resolva

Marcelo Leandro Ribeiro


A realização de um grande evento sempre é precedida de expectativas, de anseios e desejos por parte do público e dos artistas e técnicos envolvidos no processo de preparação da atividade. Com o afã de que nada dê errado, por muitas vezes o prenúncio de uma tragédia anunciada passa despercebido.

São inúmeros os casos que podemos citar para retratar que tragédias podem rondar e vitimar expectadores e artistas em eventos variados; da queda de um trapezista a um incêndio de grandes proporções como o enfrentado pelo Gran Circus Norte-Americano em dezembro de 1961 na cidade de Niterói (RJ) que acabou com a morte de quase 400 pessoas. Isso apenas para citarmos tragédias com vítimas fatais ou com gravidade relativa, pois geralmente não se dá atenção à possibilidade de adoecimento dos trabalhadores envolvidos em eventos variados.

O que difere um evento de uma atividade fabril?

Embora tenhamos na estruturação de um evento o emprego de pedreiros, marceneiros, e outros profissionais comumente encontrados na indústria e comércio, um evento tem características diferenciadas e deve ser compreendido e tratado como tal. Pois vejamos, não estamos tratando cá de um processo retilíneo e contínuo. Entre o seu preparo, realização e desmonte de estrutura se passa pouco tempo, portanto, geralmente o vínculo de certos trabalhadores com as empresas realizadoras é pequeno, e quando o profissional se locomove para a realização de suas atividades (um iluminador, técnico de som ou cenógrafo) está sempre em locais diferenciados, com pouco tempo de adaptação à estrutura em que realizará intervenções.

Ademais, ao falarmos de uma fábrica, temos preocupação apenas com o nosso corpo de colaboradores, e em uma atividade pública, cultural ou congênere, existe o fator da coletividade transitando em nossas áreas. As condições de saúde e segurança do trabalho de uma empreitada cultural podem (e vão) afetar o corpo de colaboradores e a coletividade (como no caso do Gran Circus Norte Americano). Ao dimensionarmos uma atividade artística ou cultural temos que antever a possibilidade de um acidente ou de interação dos agentes ambientais gerados pela nossa empreita com a equipe de trabalhadores, nosso público e com o entorno do evento.

Acidentes e doenças ocupacionais

Como qualquer outro trabalhador, o profissional da cultura está sujeito a incidentes e acidentes de trabalho, contudo, por quase nunca ter uma base fixa de operação, esses riscos e pequenas ocorrências acabam sendo minimizadas ou ignoradas completamente.

Além da possibilidade de acidente, esse profissional especializado está sujeito ao adoecimento pelas condições do trabalho. Um marceneiro especializado em cenários tem as mesmas propensões ao desenvolvimento de uma doença osteomuscular que alguém da mesma profissão que trabalhe de forma fixa em uma oficina, isso sem contar a possibilidade de ingestão de poeiras vegetais oriundas do particionamento da madeira, a inalação de colas e resinas e outros produtos químicos que podem ser absorvidos pela pele. Ainda pra permanecermos somente no exemplo desse profissional, podemos citar o ruído e as vibrações como fonte preocupante – cuja exposição contínua e constante por alguns anos pode levá-lo a, inevitavelmente, desenvolver uma doença ocupacional.

O profissional da cultura está tão exposto aos riscos físicos, químicos e biológicos quanto qualquer outro trabalhador, a diferença é que não existem mecanismos de proteção adequados para estes e quase não existe interesse do poder público em fiscalizar as operações de companhias culturais ou as condições de saúde e segurança do trabalho no ambiente autônomo.
Características do trabalhador da área de eventos

Podemos encontrar, entre aqueles que trabalham com a elaboração, implementação e a efetiva realização de um evento cultural ou de entretenimento de massas alguns perfis diferentes de profissionais.

Conhecer o nosso colaborador é regra em qualquer atividade econômica para buscarmos a constituição e implementação de ações de saúde e segurança do trabalho. E no segmento de eventos teremos desde aqueles trabalhadores altamente especializados e profissionalizados, quanto os carregadores de final de semana, contratados nas cidades onde atividades maiores se realizam somente para descarregar e montar as estruturas mais grosseira de cenários, arenas ou arquibancadas.

Se de um lado temos equipes profissionais com suas caravanas de trabalhadores com funções claramente definidas e respeitadas do outro encontraremos aqueles espetáculos mambembes (mambembe num sentido nada romântico, e sim da ausência de respeito e profissionalização, de baixa qualidade mesmo) em que o artista acaba sendo também o marceneiro, o eletricista, o cenógrafo, quando não o bilheteiro de si mesmo.

E é com esse escopo tão variado de pessoas que trabalhamos quando nos propomos a discutir a atuação dos profissionais da área artística.

O PPRA como fator de mudança

O instrumento mais adequado para implementar ações de saúde e segurança ocupacional nas atividades culturais e congêneres é o Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, já devidamente regulamentado pelo Ministério do Trabalho desde 1994. O PPRA é ao mesmo tempo o instrumento mais simples e o mais complexo dentre os componentes do planos de ação em segurança do trabalho. O Programa deve analisar a real exposição dos trabalhadores a agentes físicos, químicos e biológicos e se antecipar a situações de risco, garantindo-lhes proteção e integridade, incluindo a definição de métodos de trabalho e a utilização de equipamentos de proteção individual de acordo com os riscos existentes no estabelecimento ou na atividade.

O ideal é que exista a confecção e implementação de dois PPRA sempre: um do estabelecimento que abrigará a atividade cultural, sendo este de caráter permanente, com a validade do demonstrativo ambiental pelo prazo de um ano, e outro, da realizadora do evento, mensurando a quantidade de trabalhadores envolvidos na empreita, suas funções, métodos de trabalho e o demonstrativo ambiental, bem como um plano ou programa de proteção dos trabalhadores inserido dentro do programa principal. E esse PPRA não deve ser padrão; deve ser confeccionado um para cada atividade ou campanha a ser realizada. Imaginemos uma apresentação teatral; a companhia não encontrará as mesmas condições em dois teatros diferentes, e nem no mesmo teatro tendo-se passado um certo período de tempo: portanto, a cada turnê deve ser confeccionado e implementado um programa por estabelecimento a ser utilizado.

Esse simples artifício ajudaria de forma significativa a preservar a saúde e segurança dos trabalhadores da cultura, bem como cumpriria uma exigência legal já existente e simplesmente ignorada pelos promotores de eventos e pelo poder público (portaria 3.214 de 08/06/1978 e Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho).

O que pode ser feito?

Cabe ao poder público nas suas várias esferas começar a fiscalizar as ações de saúde e segurança do trabalho das empresas promotoras de atividades culturais e de entretenimento. Conforme o número de funcionários elas deverão ter em seu quadro de trabalhadores a presença de um técnico de segurança do trabalho (NR-04) e devem, a partir do momento que contam com um funcionário que seja, implementar as demais ações de segurança ocupacional, como o PPRA e o PCMSO (Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional) constante na NR-07.

Elencamos abaixo alguns mecanismos práticos que, no nosso entendimento, podem ser transformados em exigências antes da realização de atividades culturais:

*condicionar a liberação de alvarás à apresentação e validação do PPRA e PCMSO do estabelecimento sede do evento e da companhia realizadora.

*exigência de plano de proteção dos trabalhadores agregado ao PPRA.

*exigência de inventário de produtos químicos utilizados nas atividades culturais e congêneres.

*exigência de confecção de plano de emergência e contingência protocolados no corpo de bombeiros e secretaria de obras do município sede.

*ainda para liberação de alvará: exigência de toda a documentação trabalhista dos colaboradores envolvidos no evento: cópias de carteiras de trabalho e exames ocupacionais.

São pequenas ações, mas que podem começar a fazer a diferença. E se por um lado pequenos produtores podem alegar prejuízos e custos adicionais com os elementos que estamos propondo, lembramos que não sugerimos nada além do que já é exigência legal, e que em nada estarão prejudicados aqueles que produzem e trabalham dentro da legalidade.

Marcelo Leandro Ribeiro
Técnico de Segurança do Trabalho
marceloadifa@hotmail.com
Marcelo Leandro Ribeiro

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Risco Associado ou Composto - Uma realidade pouco observada na Segurança do Trabalho


Risco Associado ou Composto - Uma realidade pouco observada na Segurança do Trabalho
Marcelo Leandro Ribeiro

Estamos acostumados, em análises preliminares de risco, ou mesmo na composição de estudos, pareceres e programas como o PPRA a pontuar os agentes ambientais e sua capacidade de oferecer riscos efetivos aos trabalhadores de forma isolada.

Doutrinamo-nos a reconhecer a presença de riscos físicos, químicos e biológicos (este último, salvo exceções, com pouco aprofundamento por parte de profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho), estabelecendo mecanismos de mensuração e controle de agentes como ruído, calor, umidade ou a presença de riscos químicos como a poeira, gases, vapores e névoas, sem contudo dar uma dimensão de associação, composição e unicidade à nocividade causada por esses elementos em conjunto.

Essa incapacidade de associarmos os agentes ambientais entre si nos remete à uma forçosa impossibilidade de mapearmos adequadamente os riscos que um determinado ambiente de trabalho oferece. Tomemos como exemplo uma lavanderia hospitalar qualquer, que cometa erros em seu fluxo e apresente descuidos em relação às normas de higiene ocupacional; em seu processo temos a divisão do espaço físico em dois – área suja, por onde adentram as peças a serem processadas, e a área limpa, por onde as mesmas saem após processo de higienização química- sendo assim, existem os seguintes agentes inseridos no processo: na área suja temos a forte presença do risco biológico dada a origem dos enxovais. Essas peças serão processadas com a utilização de agentes químicos diversos e seguirão com resíduos para a área limpa. Durante a centrifugação e secagem das roupas existe um desprendimento e dispersão de microfibras de linho e algodão no ambiente, configurando poeira vegetal com grande capacidade de manter-se em suspensão, e pelas suas dimensões, facilmente absorvível pelos colaboradores da nossa hipotética lavanderia.
Já temos então os seguintes agentes elencados nesse simples processo: risco biológico presente através de colônias de micro-organismos nas peças a serem lavadas, risco químico dado os produtos a serem processados e a poeira vegetal liberada no ambiente. Caso nossa lavanderia apresente incidência elevada de ruído, ainda teríamos que acrescer esse risco físico em nossas preocupações.
Se analisarmos cada um desses elementos isoladamente, tomaremos, sem dúvida, medidas de correção, que, contudo, serão -pela sua individualidade- infrutíferas. Com certeza conseguiríamos reduzir a incidência de exposição a cada um deles, sem porém, ter a exata noção do que a combinação, mesmo que de resíduos dos agentes, poderia causar no organismo humano.
Continuemos a analisar o nosso caso fantasioso, agora tendo em mente a junção de exposição: a roupa processada na área suja, cheia de micro-organismos, segue para a área limpa mantendo fragmentos das colônias bacteriológicas, e com a suspensão de poeira vegetal no ambiente, esses micro-organismos acham um ‘veículo’ perfeito para mudar de espaço físico, transportando-se com a poeira em suspensão e sendo facilmente absorvida pelo organismo de nossos funcionários. Não teríamos então uma pneumoconiose (no nosso caso, possivelmente uma bissinose) tradicional, mas sim doença agravada pela presença de micro-organismos hostis no pulmão (e eventualmente no sangue) do trabalhador, acelerando o processo de depreciação da saúde do mesmo.
Outro caso de associação que podemos fazer dá-se com a presença do ruído em conjunto com resíduos químicos em suspensão, seja através da poeira vegetal (com grande capacidade de absorção de umidade) ou na forma de gases e vapores. Ruído e certos elementos químicos combinados, sobretudo com a característica de absorção de umidade, adquirem propriedades lesivas para frágeis membranas como os tímpanos.
Esse tipo de associação pode ser facilmente transposta para qualquer setor industrial, comercial ou de serviços.
Como os riscos são compostos, ou associativos, tratá-los de forma individualizada não surtirá efeito algum, senão a breve sensação de que estamos num ambiente sem insalubridade do ponto de vista legal, já que os indicadores quantitativos do ambiente estarão abaixo dos limites legais de tolerância, contudo, uma breve percepção qualitativa nos demonstrará o contrário, provando a fragilidade e falência de certos sistemas de gestão em segurança do trabalho.
Cabe sairmos da visão simplista tradicional da Segurança do Trabalho e buscarmos enxergar, analisar, compreender e agir sobre o ambiente de trabalho dando importância a cada aspecto, a todo item.

Os Serviços de Saúde e a Educação Continuada

Os Serviços de Saúde e a Educação Continuada

Marcelo Leandro Ribeiro

Um dos aspectos estabelecidos pela norma regulamentadora nº 32 é a necessidade dos serviços de saúde instituírem sistemas efetivos de capacitação e educação continuada aos seus trabalhadores. Contudo, a NR-32 acaba sendo um pouco ineficaz no sentido de parametrizar esses serviços de capacitação já que não diz claramente o que deseja e como deseja.Ficam portanto, os estabelecimentos obrigados a atender aos dispostos nessa norma, livres de certa forma, para instituírem treinamentos, capacitação e educação continuada conforme as suas características; claro, na medida do bom senso e em consonância com as atividades e riscos da unidade laboral.

Os serviços de saúde tendem a ser flexíveis e dinâmicos. Dezenas de novas patologias e alterações virais surgem todos os anos, bem como inovações tecnológicas, exigindo dos profissionais da área que estejam em constante processo de atualização: ontem foi o Ebola, hoje a gripe suína, amanhã não sabemos o que será. Que riscos esses fatores trazem? Qual a capacidade de virulência e propagação no ambiente dos novos agentes? E como se portarão médicos, enfermeiros e auxiliares? Só essas áreas estão inseridas no contexto da necessária educação continuada?
A resposta, embora óbvia, nem sempre é compreendida e aplicada. Os riscos inerentes nas atividades de saúde, sobretudo no meio hospitalar, são expansíveis ao conjunto dos trabalhadores, claro que, em maior ou menor escala conforme as atividades que estes desenvolvem. Sendo assim, temos primeiro um desafio, fazer os serviços de educação continuada romperem as redomas da enfermagem e transbordarem ações e conhecimentos para as áreas de apoio – igualmente importantes-, como limpeza, lavanderia e serviços administrativos.
Trabalhadores de todos os segmentos devem ser treinados e orientados quanto aos riscos a que estão expostos, bem como à possibilidade de associação de riscos (químicos mais biológicos, biológico mais físico, etc).
A educação continuada e os serviços de capacitação tem que ser compreendidos como fonte propagadora de conhecimento; elemento constante de educação e artifício capaz de agregar valores não só à organização como ao colaborador, além de ser importante redutor de custos: trabalhador treinado, educado e instruído se acidenta menos, adoece menos e propaga menos infecções cruzadas, o que incide sobre a qualidade dos serviços prestados pela instituição de saúde.
As instituições que já tiveram essa percepção saíram na frente.

O profissional da saúde e o uso de adornos e jalecos

O profissional da saúde e o uso de adornos e jalecos

Marcelo Leandro Ribeiro


Quando os profissionais de saúde começaram a pensar em âmbito nacional na necessidade de criar uma política ou norma de saúde e segurança do trabalho para o setor – que viria a se formalizar através da publicação da NR-32 em 2.005- sabiam que o mais difícil seria mudar a cultura das pessoas que atuam nesse segmento.

E desde a aprovação da Norma Regulamentadora nº 32 as coisas não mudaram muito.
Recentemente os mecanismos de comunicação têm veiculado matérias apontando condutas erradas dos nossos companheiros de labor, sobretudo ressaltando as ações que podem levar a riscos de contaminação do ambiente ou do paciente.

É interessante citarmos dois casos comuns em qualquer unidade de saúde do Brasil: a utilização de adornos e o uso indevido de jalecos e vestimentas privativas.

No caso dos jalecos, parece que esse instrumento, destinado à proteção do corpo do funcionário e reforçador do demonstrativo de assepsia ganhou (e gerou) ares de status a quem o utiliza. É normal vermos estudantes transitando no entorno das faculdades de enfermagem e medicina com seus jalecos, ou mesmo profissionais graduados com essa indumentária fora da área hospitalar.

Pesquisas recentes apontam para a inevitável contaminação dos jalecos quando usados inadequadamente (com 90% das bactérias resistindo por até 12 horas na vestimenta e podendo contaminar as áreas por onde o profissional que a esteja trajando transitar).

Outro caso típico de desrespeito às normas primárias de biossegurança é a utilização de adornos (anéis, pulseiras, brincos, colares, etc) em áreas onde haja a exposição do profissional de saúde à agentes biológicos. No caso dos adornos, a proibição se deve dada a compreensão de que estes instrumentos podem sofrer contaminação e servir de vetor para propagar a presença de microorganismos vários pela unidade de saúde, ou ainda, possibilitar ao profissional retirar esses agentes da unidade e transpô-los para sua residência ou outros locais.

Os riscos ambientais na área de saúde são quase sempre invisíveis, pouco palpáveis ou perceptíveis ao colaborador, por isso a maior dificuldade em compreenderem que ações simples podem gerar bem estar ou benefícios para a sua saúde. Assim sendo, mesmo com um instrumento rígido e eficiente já existente (a NR-32) sem uma mudança drástica de cultura, os trabalhadores de saúde continuarão expostos. Como promover essa mudança? Com perseverança e parcimônia. Se alguém tiver outra fórmula, por favor, me conte!
Marcelo Leandro Ribeiro
Coordenador Técnico de Segurança do Trabalho

Fatores Psicossociais no Ambiente da Saúde

Fatores Psicossociais no Ambiente da Saúde

Marcelo Leandro Ribeiro

A área da saúde diferencia-se das demais por uma série de características, sendo uma das mais marcantes a presença efetiva de riscos quase que imperceptíveis aos trabalhadores, porém, de igual ou maior gravidade que aqueles encontrados na indústria e comércio.

Além de palco exponencial para a proliferação e contaminação por riscos biológicos, outros fantasmas agem em silêncio em clínicas e hospitais: trata-se dos fatores psicossociais que afetam drasticamente a saúde de auxiliares, técnicos e enfermeiros. São, inclusive, esses fatores que levam ao maior índice de adoecimentos e afastamentos de profissionais da saúde em nível nacional.

Não é difícil traçarmos um mapa do desgaste psicossocial dos nossos colaboradores: via de regra possuem um segundo ou terceiro emprego, e entre estes estudam – exigência contínua para profissionais da área. O trato com a dor e a morte, o apego à pacientes que se vão, tudo isso influencia de forma efetiva no comportamento e na saúde mental dos trabalhadores.

Não bastassem esses fatores, ainda existe, em meio à várias unidades de saúde pelo Brasil afora, aquele tipo de chefe ultrapassado que, se pudesse, usaria um chicote para guiar sua ‘tropa’. A exigência pela realização de horas extras, a marcação cerrada em cima dos funcionários, ameaças, maus tratos, etc, além de configurar assédio moral, ainda coloca em declínio o bem estar no ambiente, reduz o índice de satisfação dos funcionários do setor e agrava ou faz surgir doenças psíquicas nos colaboradores.

Não à toa, nos hospitais, o índice de afastamentos por stress, depressão, e transtornos mentais é extremamente elevado, causando prejuízos às instituições e aos cofres públicos, já que quem arca com a maior fatia dos encargos gerados pelos afastamentos é exatamente a Previdência.

Assim sendo, cabe aos setores de medicina ocupacional ou segurança do trabalho estudar o problema e encará-lo de frente.

Um trabalhador debilitado ou adoecido interfere na produção de sua equipe, gera insatisfação de pacientes (ninguém quer ser atendido por quem não esteja bem, ou que passe o dia reclamando de tudo e todos, para todos e tudo), e também produz prejuízos vários à empresa.

Uma das medidas possíveis é mapear os fatores geradores de afastamentos por agentes psicossociais no ambiente laborativo e começar a enfrentá-los, um a um, de frente e com coragem.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Humanizar é Preciso


Humanizar é Preciso

Marcelo Leandro Ribeiro

O aumento da expectativa de vida do brasileiro e a busca pela universalização do acesso à saúde (pública ou privada) trouxeram à tona a discussão sobre a necessidade da chamada humanização nas relações de saúde, bem como despertaram intensos debates sobre a qualidade dos serviços prestados e como a ausência dos mecanismos fundamentais para a humanização influenciam na eficácia do atendimento e na qualidade do ambiente de trabalho.

Para que se faça um debate sério algumas místicas precisam ser rompidas e a primeira passa exatamente pela amplitude da humanização: o conceito está restrito ao atendimento, mas deve ser maximizado. A humanização completa só será levada a cabo se estiverem contempladas as necessidades dos trabalhadores da saúde.

Partindo do princípio de que o produto final da saúde é humano, nada mais natural que todo o processo seja também humanizado, desde o recebimento da ‘matéria prima’, sem dúvida valiosíssima até a saída deste das unidades de saúde.

Um pouco de história

Para compreendermos por que temos determinadas mazelas e vícios no atendimento é preciso buscamos as origens do sistema hospitalar.

Até o século XVIII os hospitais (do latim hospitale: hospedaria, refúgio) eram instituições destinadas ao desterro de vagabundos, errantes e doentes das classes mais baixas. Os abastados se tratavam em casa, sempre protegidos pelo aconchego do lar e pelo médico de confiança da família. Já àqueles que nada tinham, restava-lhe o abrigo dos hospitais ou sanatórios, sempre ligados à igreja católica (muitos tinham suas instalações ao lado das igrejas). Mais do que abrigar os doentes, os hospitais, com suas estruturas medievais, cumpriam um outro papel: o de salvaguardar a sociedade, evitando que todos aqueles leprosos e portadores de pestilências voltassem às vilas e feudos espalhando suas mazelas. Com essa compreensão, raros eram aqueles que conseguiam alta.

Não se pretendia a cura para o individuo, mas sim uma assistência material e espiritual, preparando-se os últimos cuidados e o sacramento final.

Após o século XVIII houve um evidente avanço nas técnicas de atendimento à saúde e sobretudo na ciência médica, possibilitando um aprimoramento crescente nos meios de diagnóstico e tratamento provocando uma inversão no papel dos hospitais: privilegiando a técnica e o tratamento científico, o conforto e a assistência humana foram deixados de lado.

Fato atípico dessa relação, e que, com o tempo se tornou rotineiro, foi o paciente temer mais o tratamento que a morte. O tratamento tornou-se tão traumático para o usuário do sistema de saúde que muitos preferem a morte à uma técnica ou tratamento intensivo.

Vivemos um momento paradoxal: se até o século XVIII as pessoas e hospitais ofereciam conforto e assistência aos doentes por que a ciência pouco ou nada podia lhes prover, hoje a ciência – evoluída e consolidada-, pode oferecer muito, mas as pessoas se resignaram a apresentar apenas a técnica, transformando o atendimento em impessoal.

Tratando o paciente de forma objetiva, desconsiderando aspectos subjetivos, o profissional de saúde corre o risco de implementar ações meramente tecnicistas, por muitas vezes frias. Comum é o profissional de saúde enxergar o paciente apenas como um receptáculo ou desenvolvedor de uma patologia (fonte de recursos financeiros, material para estudos ou para estatísticas, etc), como se este não tivesse nome e anseios, família e temores.

Um problema que vai além!

O hospital e as instituições de saúde não devem ser analisadas isoladamente da sociedade. Elas compõe uma estrutura maior. Não é, portanto, somente a saúde que está desumanizada. O atendimento de saúde reflete apenas uma parcela do que ocorre na sociedade, esta sim corrompida e desumana.

O que fazer?

Quando falamos de humanização temos que lembrar sempre que ela vai ocorrer não somente através das mudanças no atendimento, mas sim entre as relações profissionais na equipe. Compreender o profissional de saúde é dar um passo certeiro no sentido de melhorar as suas relações de interação com o paciente, com a família deste, e entre os membros da equipe. Melhorar suas condições de trabalho é criar um clima mais favorável ao bom atendimento e cumprimento de suas obrigações.

O profissional de saúde é um trabalhador diferenciado. Ele tem mais estudo e acesso a cultura que os trabalhadores da indústria, embora esses últimos tenham médias salariais muito mais elevadas. Além disso, a exposição aos agentes biológicos (com ampla capacidade de patogenicidade) é corriqueira. Por estarem expostos, esses profissionais tem alguns pretensos benefícios (nada mais que compensações pela sua exposição): jornadas especiais como a 12 x 36 e aposentadoria em tempo reduzido. Só que em vez de aproveitar esse tempo para se aprimorar ou descansar, o trabalhador logo busca uma segunda ou terceira colocação. A múltipla jornada é uma realidade.

Ademais, existe a necessidade de constante atualização desse profissional. A cada mês surge uma patologia nova a ser estudada e combatida, a cada ciclo de anos uma pandemia faz vítimas pelo mundo e quem está na linha de frente é o profissional da saúde.
Compreendido (e respeitado) esse profissional, chega a hora do: o que fazer? Como posso melhorar o ambiente de trabalho para eles?

A melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde geraria um circulo positivo: trabalhando em condições mais adequadas os colaboradores produziriam mais, estariam menos suscetíveis a acidentes e doenças ocupacionais que tanto prejuízo trazem às instituições, criariam vínculos com a sua equipe de trabalho e por conseqüência, prestariam o melhor dos atendimentos possíveis.

Algumas medidas simples no sentido de ampliar a humanização podem ser tomadas pelo governo e pelas instituições. A humanização então, da forma como propomos e a compreendemos, visa ser um via de mão dupla, beneficiando trabalhadores da saúde e, sobretudo e principalmente, os pacientes.No que concerne à formação do profissional de saúde, preparando-o para um atendimento mais humano elencamos a necessidade de:

*Instituição de uma grade curricular diferenciada nos cursos técnicos e de graduação nas áreas de saúde, com maior carga horário de ética, psicologia social e do trabalho e a criação de uma disciplina de humanização·

*Desburocratização dos serviços de saúde.·Maior integração entre as áreas e implementação de círculos de conhecimento e trabalho (absorvendo até mesmo o conceito de educação continuada da NR-32);

*Mais investimentos em formação técnico-profissional;

*Redução da carga horária dos profissionais de saúde. Agindo sobre o operador de saúde o serviço prestado vai ser melhor, e só assim atingirá o usuário. Não se pode exigir respeito do usuário se esse não está recebendo um tratamento de respeito. O usuário é a última parte do círculo da humanização e sem ele estar convencido e satisfeito com a qualidade do sistema, não há atendimento que passe sob o crivo da verdadeira humanização.

O papel do SESMT na luta pela humanização

Descrito como pensamos a humanização da saúde fica claro que o SESMT, nos hospitais e clínicas onde exista esse serviço, tem um papel interno, na compreensão e convencimento das frentes de trabalho acerca da necessária mudança de postura e cultura.
Cabe ao SESMT também a luta cotidiana por melhores (e mais seguras) condições de trabalho aos profissionais por ele representados. Atingida essa mudança o nível de satisfação interno melhorará, por conseqüência, a capacidade do operador de saúde oferecer um melhor tratamento aos pacientes.

O papel do governo na luta pela humanização

Já ao governo cabe a regulamentação de mudanças estruturais e conjunturais para o setor, como a redução da jornada de trabalho e incentivos variados; a proibição de múltiplos empregos (sobretudo para enfermeiros e afins) e a regulamentação dos estágios e ensino técnico e superior no sentido de dotá-los de uma visão mais humanista.
Embora saibamos que não se mudam séculos em alguns dias, não custa darmos os primeiros passos.

Marcelo Leandro Ribeiro
Técnico de Segurança do Trabalho
Coordenador do SESMT do Grupo Samaritano Sorocaba
marcelo.ribeiro@hsmediplan.com.br
marceloadifa@hotmail.com