Múltipla Jornada: Por que sou contra?
Marcelo Leandro Ribeiro
Fato dos mais corriqueiros entre os profissionais de saúde, sobretudo os da enfermagem, é encontrarmos aqueles que possuem dois ou mais empregos. Muitos emendam plantões, dedicam-se ao trabalho em hospitais e clínicas diferentes, sacrificam finais de semana e as preciosas horas de convívio com a família.
Os defensores da múltipla jornada alegam ser prerrogativa dos profissionais exercerem o direito de escolha de quanto tempo podem dispor ao exercício profissional, e que estão amparados por lei para terem, em regime de CLT, quantas ocupações quiserem e suportarem.
Contudo, contrário ao exercício de mais de um emprego para os profissionais da área, apresento ao debate alguns argumentos:
*Reconhecidamente o profissional da saúde é diferenciado. Cabe aos agentes de saúde em todos os níveis desenvolver uma apurada observação e análise dos riscos contidos em seu trabalho.
Nota-se que um trabalhador que esteja laborando à mais de oito horas não deterá o nível de atenção em seu trabalho nos padrões que julgamos adequados, não conseguindo com isso analisar corretamente uma situação que lhe chegue em mãos. Seus reflexos e raciocínio estarão comprometidos e a resposta rápida que se esperaria dele pode vir debilitada ou acometida de falhas grosseiras.
*Tais profissionais necessitam de constante aprimoramento. A possibilidade de surgimento de uma nova patologia, de meios avançados de combatê-la ou de novas técnicas é patente.
Trabalhando em múltiplas jornadas o agente de saúde não tem condições de preparar-se para o melhor exercício de suas atividades, deixando de render aquilo que poderia e que o paciente espera.
*O organismo do trabalhador da área da saúde não tem tempo de recuperação à exposição à agentes biológicos com o advento da jornada múltipla.
Embora o risco biológico seja quase que imperceptível, sua presença é efetiva nas unidades de saúde, sejam clínicas, hospitais ou outras congêneres. Consideramos como agente causador de risco biológico aqueles microorganismos com capacidade de patogenicidade. Bem sabemos que a contaminação por doenças infectocontagiosas pode ser deflagrada pela combinação de alguns fatores, tais como a propensão do indivíduo em desenvolver a doença; o estado do seu sistema imunológico no momento e, finalmente, o contato com o agente causador.
Tendo um tempo menor de descanso existe uma tendência do organismo do agente de saúde não se recuperar entre uma jornada e outra, rebaixando a capacidade de defesa do seu sistema imunológico, com isso, se existir a tal propensão evidenciada para o desenvolvimento de uma patologia de causa viral ou bacteriana e ele tiver o contato com o agente causador, com certeza suas chances de adoecimento serão grandes. A chamada jornada de doze horas trabalhadas por dezesseis horas descansadas havia sido formatada exatamente para que o colaborador tivesse um amplo tempo de recuperação. Com um segundo emprego dobra-se a exposição e reduz-se o tempo de recuperação, colocando-o em risco.
*A área da saúde é a que mais promove afastamentos e benefícios previdenciários no País, sobretudo os de origem psicossocial.
Pouco observado, existe o desgaste mental entre os profissionais da área. O contato diário com a dor e a morte, a ausência de princípios mínimos de humanização na maioria dos locais de trabalho e a falta de perspectivas profissionais levam ao aparecimento de doenças como depressão e outras. A manutenção de apenas um emprego reduziria essa exposição psicossocial e seus danos, dando tempo ao trabalhador para que este se recupere.
*O trabalho de um profissional da área da saúde afeta um universo grande de pessoas.
Não é permitido à médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros, a prerrogativa do erro. Ao contrário de uma fábrica onde, ao errar um trabalhador perde uma peça, nesse ramo, se o profissional falhar ele coloca uma ou mais vidas em risco, não só com procedimentos diretos inadequados, como com a ausência de práticas corretas de biossegurança, o que pode afetar a coletividade. Descansado, a possibilidade de errar é muito menor.
*A múltipla jornada mascara a baixa remuneração do setor.
Por muitas vezes ter dois ou três empregos causa ao trabalhador a falsa sensação de boa remuneração, e este se esquece o quanto teve que trabalhar e quantas horas foram necessárias para que se chegasse a um erário maior. O correto seria as entidades de classe e os sindicatos aderirem à luta pela redução da jornada de trabalho de 30 horas semanais para os profissionais da enfermagem; para a instituição de um piso nacional para os médico e outros benefícios, mas que também houvessem restrições: proibição de múltiplo emprego (o que evitaria a alardeada exposição do trabalhador a uma série de agentes e geraria dezenas de milhares de empregos no País) e a proibição ou sobretaxação das horas extras.
Pelos fatores citados reafirmo, quanto à múltipla jornada, na condição de prevencionista e teórico da humanização nas relações da saúde, sou contra.
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