Esteticistas versus contaminação química ou biológica
Marcelo Leandro Ribeiro
Costumamos dizer na segurança do trabalho que nenhuma profissão é imune totalmente de riscos, mesmo que tenhamos aquela falsa sensação de que determinada categoria profissional não será afetada por um agente ocupacional com capacidade de depreciar a saúde de seus praticantes com o passar dos anos.
Percebemos que existe uma preocupação consideravelmente maior no interior de fábricas e outras atividades econômicas constituídas, e certo desapego às práticas de saúde e segurança do trabalho entre as ocupações classificadas como autônomas de baixa renda. Entre as profissionais do ramo de estética, sejam elas cabeleireiras, manicures, pedicures, podólogas ou esteticistas plenas, aparecem dois grupos de agentes ambientais que despertam maior necessidade de atenção:
Riscos químicos:
Consideramos como agentes causadores de riscos químicos aqueles produtos ou mecanismos que possam ser absorvidos pela pele e os que podem ser inalados. Temos então nessa categoria gases, vapores, fumos e névoas, além da possibilidade citada de absorção dos produtos pela pele das operadoras da beleza.
A maioria dos agentes químicos tem ação acumulativa no organismo, ou seja, a tendência é que a repetição de procedimentos inadequados e o conseqüente contato e absorção de algum produto, seja pela pele, ou através da inalação por meio dos gases e vapores liberados pelo agente, podem levar, com o passar dos anos, a uma acentuada depreciação da saúde da profissional de estética.
É comum ignorarmos no dia a dia o risco químico simplesmente por não vermos os tais gases, vapores e névoas que estes liberam. A inalação continuada de produtos usados corriqueiramente, como esmaltes, removedores, solventes (alguns inflamáveis) tinturas, cremes e outros, podem causar irritações e doenças mais severas do aparelho respiratório, podendo chegar até a evoluir para uma pneumoconiose. No caso do contato com a pele ainda existe a possibilidade do desenvolvimento de diversas doenças dermatológicas e o risco do produto encontrar um mecanismo de acesso para a corrente sanguínea do trabalhador.
Riscos Biológicos:
Se no caso dos agentes químicos, sobretudo quando estes adquirem a forma de aerossóis (micro-partículas que ficam em suspensão) já temos a dificuldade de compreender e perceber o risco, maior dificuldade ainda de visualização temos com o risco biológico.
O risco biológico é representado por microorganismos patógenos, ou seja, com condições de afetar diretamente a saúde humana, depreciando e levando-a ao adoecimento gradativo ou severo. Entram nessa categoria diversos fungos, vírus, bactérias, etc.
Ao contrário do risco químico, que na maioria das vezes tem aspecto acumulativo no organismo, à alguns microorganismos basta um rápido contato para existir a contaminação.
A exposição do trabalhador ao risco biológico pode se dar, entre outras formas, através do contato direto e do indireto com o agente.
No contato indireto a contaminação dar-se-á através de objetos ou instrumentos contaminados. Uma escova ou prendedor, por exemplo, em que um cliente contaminado tenha espirrado e que depois tenha sido levado à boca pela profissional de estética. E no contato direto, a absorção de gotículas de saliva contaminada numa das tradicionais conversas de salão de beleza. A distância entre cliente e aplicadora do serviço de estética e a característica do agente contaminante podem ser fundamentais para a transmissão.
Além desses meios, muito comuns de contaminação entre as doenças infectocontagiosas, temos a possibilidade de contaminação e adoecimento pós-acidente com perfuro-cortante. Os perfuro-cortantes são todos os instrumentos com capacidade de perfuração ou laceração da pele, e quando uma manicure se fere com um alicate que estava sendo usado numa cliente, corre o risco de, se essa cliente estiver contaminada, ter adquirido também um microorganismo lesivo à sua saúde.
No caso da maioria dos microorganismos com condições de patogenicidade, existe uma combinação de fatores que podem levar ou não aquele que teve contato ao adoecimento, entre eles a propensão natural do seu organismo e a sua imunidade no momento.
Sabemos que a profissional de estética não tem condições de triar todas as suas clientes, saber quem é quem e o que teve ou tem, e muito menos de mensurar se tem propensão para o desenvolvimento de determinada patologia, bem como o seu organismo reagirá sendo receptáculo de algum composto químico, por isso a prevenção continua sendo o melhor remédio para que mantenham a saúde e a qualidade de vida.
Práticas comuns devem ser adotadas, como manter em ordem a vacinação contra Hepatite B, solicitar ao médico exames periódicos para a avaliação das funções hepáticas, como o TGO e TGP, utilizar luvas como mecanismo de proteção à agentes químicos, óculos de proteção quando houver a possibilidade de respingos e máscaras semi-faciais simples quando da manipulação de agentes mais agressivos, além de esterilizar sempre os materiais de uso comum como alicates e pinças.
Quem cuida da beleza dos outros, tem que manter a sua saúde sempre em dia.
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