quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Múltipla Jornada: Por que sou contra?

Marcelo Leandro Ribeiro

Fato dos mais corriqueiros entre os profissionais de saúde, sobretudo os da enfermagem, é encontrarmos aqueles que possuem dois ou mais empregos. Muitos emendam plantões, dedicam-se ao trabalho em hospitais e clínicas diferentes, sacrificam finais de semana e as preciosas horas de convívio com a família.

Os defensores da múltipla jornada alegam ser prerrogativa dos profissionais exercerem o direito de escolha de quanto tempo podem dispor ao exercício profissional, e que estão amparados por lei para terem, em regime de CLT, quantas ocupações quiserem e suportarem.

Contudo, contrário ao exercício de mais de um emprego para os profissionais da área, apresento ao debate alguns argumentos:

*Reconhecidamente o profissional da saúde é diferenciado. Cabe aos agentes de saúde em todos os níveis desenvolver uma apurada observação e análise dos riscos contidos em seu trabalho.

Nota-se que um trabalhador que esteja laborando à mais de oito horas não deterá o nível de atenção em seu trabalho nos padrões que julgamos adequados, não conseguindo com isso analisar corretamente uma situação que lhe chegue em mãos. Seus reflexos e raciocínio estarão comprometidos e a resposta rápida que se esperaria dele pode vir debilitada ou acometida de falhas grosseiras.

*Tais profissionais necessitam de constante aprimoramento. A possibilidade de surgimento de uma nova patologia, de meios avançados de combatê-la ou de novas técnicas é patente.

Trabalhando em múltiplas jornadas o agente de saúde não tem condições de preparar-se para o melhor exercício de suas atividades, deixando de render aquilo que poderia e que o paciente espera.

*O organismo do trabalhador da área da saúde não tem tempo de recuperação à exposição à agentes biológicos com o advento da jornada múltipla.

Embora o risco biológico seja quase que imperceptível, sua presença é efetiva nas unidades de saúde, sejam clínicas, hospitais ou outras congêneres. Consideramos como agente causador de risco biológico aqueles microorganismos com capacidade de patogenicidade. Bem sabemos que a contaminação por doenças infectocontagiosas pode ser deflagrada pela combinação de alguns fatores, tais como a propensão do indivíduo em desenvolver a doença; o estado do seu sistema imunológico no momento e, finalmente, o contato com o agente causador.

Tendo um tempo menor de descanso existe uma tendência do organismo do agente de saúde não se recuperar entre uma jornada e outra, rebaixando a capacidade de defesa do seu sistema imunológico, com isso, se existir a tal propensão evidenciada para o desenvolvimento de uma patologia de causa viral ou bacteriana e ele tiver o contato com o agente causador, com certeza suas chances de adoecimento serão grandes. A chamada jornada de doze horas trabalhadas por dezesseis horas descansadas havia sido formatada exatamente para que o colaborador tivesse um amplo tempo de recuperação. Com um segundo emprego dobra-se a exposição e reduz-se o tempo de recuperação, colocando-o em risco.

*A área da saúde é a que mais promove afastamentos e benefícios previdenciários no País, sobretudo os de origem psicossocial.

Pouco observado, existe o desgaste mental entre os profissionais da área. O contato diário com a dor e a morte, a ausência de princípios mínimos de humanização na maioria dos locais de trabalho e a falta de perspectivas profissionais levam ao aparecimento de doenças como depressão e outras. A manutenção de apenas um emprego reduziria essa exposição psicossocial e seus danos, dando tempo ao trabalhador para que este se recupere.

*O trabalho de um profissional da área da saúde afeta um universo grande de pessoas.

Não é permitido à médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e outros, a prerrogativa do erro. Ao contrário de uma fábrica onde, ao errar um trabalhador perde uma peça, nesse ramo, se o profissional falhar ele coloca uma ou mais vidas em risco, não só com procedimentos diretos inadequados, como com a ausência de práticas corretas de biossegurança, o que pode afetar a coletividade. Descansado, a possibilidade de errar é muito menor.

*A múltipla jornada mascara a baixa remuneração do setor.

Por muitas vezes ter dois ou três empregos causa ao trabalhador a falsa sensação de boa remuneração, e este se esquece o quanto teve que trabalhar e quantas horas foram necessárias para que se chegasse a um erário maior. O correto seria as entidades de classe e os sindicatos aderirem à luta pela redução da jornada de trabalho de 30 horas semanais para os profissionais da enfermagem; para a instituição de um piso nacional para os médico e outros benefícios, mas que também houvessem restrições: proibição de múltiplo emprego (o que evitaria a alardeada exposição do trabalhador a uma série de agentes e geraria dezenas de milhares de empregos no País) e a proibição ou sobretaxação das horas extras.

Pelos fatores citados reafirmo, quanto à múltipla jornada, na condição de prevencionista e teórico da humanização nas relações da saúde, sou contra.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Esteticistas versus contaminação química ou biológica

Marcelo Leandro Ribeiro

Costumamos dizer na segurança do trabalho que nenhuma profissão é imune totalmente de riscos, mesmo que tenhamos aquela falsa sensação de que determinada categoria profissional não será afetada por um agente ocupacional com capacidade de depreciar a saúde de seus praticantes com o passar dos anos.

Percebemos que existe uma preocupação consideravelmente maior no interior de fábricas e outras atividades econômicas constituídas, e certo desapego às práticas de saúde e segurança do trabalho entre as ocupações classificadas como autônomas de baixa renda. Entre as profissionais do ramo de estética, sejam elas cabeleireiras, manicures, pedicures, podólogas ou esteticistas plenas, aparecem dois grupos de agentes ambientais que despertam maior necessidade de atenção:

Riscos químicos:

Consideramos como agentes causadores de riscos químicos aqueles produtos ou mecanismos que possam ser absorvidos pela pele e os que podem ser inalados. Temos então nessa categoria gases, vapores, fumos e névoas, além da possibilidade citada de absorção dos produtos pela pele das operadoras da beleza.

A maioria dos agentes químicos tem ação acumulativa no organismo, ou seja, a tendência é que a repetição de procedimentos inadequados e o conseqüente contato e absorção de algum produto, seja pela pele, ou através da inalação por meio dos gases e vapores liberados pelo agente, podem levar, com o passar dos anos, a uma acentuada depreciação da saúde da profissional de estética.

É comum ignorarmos no dia a dia o risco químico simplesmente por não vermos os tais gases, vapores e névoas que estes liberam. A inalação continuada de produtos usados corriqueiramente, como esmaltes, removedores, solventes (alguns inflamáveis) tinturas, cremes e outros, podem causar irritações e doenças mais severas do aparelho respiratório, podendo chegar até a evoluir para uma pneumoconiose. No caso do contato com a pele ainda existe a possibilidade do desenvolvimento de diversas doenças dermatológicas e o risco do produto encontrar um mecanismo de acesso para a corrente sanguínea do trabalhador.

Riscos Biológicos:

Se no caso dos agentes químicos, sobretudo quando estes adquirem a forma de aerossóis (micro-partículas que ficam em suspensão) já temos a dificuldade de compreender e perceber o risco, maior dificuldade ainda de visualização temos com o risco biológico.

O risco biológico é representado por microorganismos patógenos, ou seja, com condições de afetar diretamente a saúde humana, depreciando e levando-a ao adoecimento gradativo ou severo. Entram nessa categoria diversos fungos, vírus, bactérias, etc.

Ao contrário do risco químico, que na maioria das vezes tem aspecto acumulativo no organismo, à alguns microorganismos basta um rápido contato para existir a contaminação.

A exposição do trabalhador ao risco biológico pode se dar, entre outras formas, através do contato direto e do indireto com o agente.

No contato indireto a contaminação dar-se-á através de objetos ou instrumentos contaminados. Uma escova ou prendedor, por exemplo, em que um cliente contaminado tenha espirrado e que depois tenha sido levado à boca pela profissional de estética. E no contato direto, a absorção de gotículas de saliva contaminada numa das tradicionais conversas de salão de beleza. A distância entre cliente e aplicadora do serviço de estética e a característica do agente contaminante podem ser fundamentais para a transmissão.

Além desses meios, muito comuns de contaminação entre as doenças infectocontagiosas, temos a possibilidade de contaminação e adoecimento pós-acidente com perfuro-cortante. Os perfuro-cortantes são todos os instrumentos com capacidade de perfuração ou laceração da pele, e quando uma manicure se fere com um alicate que estava sendo usado numa cliente, corre o risco de, se essa cliente estiver contaminada, ter adquirido também um microorganismo lesivo à sua saúde.

No caso da maioria dos microorganismos com condições de patogenicidade, existe uma combinação de fatores que podem levar ou não aquele que teve contato ao adoecimento, entre eles a propensão natural do seu organismo e a sua imunidade no momento.

Sabemos que a profissional de estética não tem condições de triar todas as suas clientes, saber quem é quem e o que teve ou tem, e muito menos de mensurar se tem propensão para o desenvolvimento de determinada patologia, bem como o seu organismo reagirá sendo receptáculo de algum composto químico, por isso a prevenção continua sendo o melhor remédio para que mantenham a saúde e a qualidade de vida.

Práticas comuns devem ser adotadas, como manter em ordem a vacinação contra Hepatite B, solicitar ao médico exames periódicos para a avaliação das funções hepáticas, como o TGO e TGP, utilizar luvas como mecanismo de proteção à agentes químicos, óculos de proteção quando houver a possibilidade de respingos e máscaras semi-faciais simples quando da manipulação de agentes mais agressivos, além de esterilizar sempre os materiais de uso comum como alicates e pinças.

Quem cuida da beleza dos outros, tem que manter a sua saúde sempre em dia.